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authorSilvio Rhatto <rhatto@riseup.net>2018-08-07 10:05:58 -0300
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-[[!meta title="Sobre a brevidade da vida"]]
-
-* [Seneca On The Shortness Of Life](https://archive.org/details/SenecaOnTheShortnessOfLife).
-* [Sobre a Brevidade da Vida - Sêneca](http://lelivros.love/book/baixar-livro-sobre-a-brevidade-da-vida-seneca-em-pdf-epub-e-mobi-ou-ler-online/).
-
-## Trechos
-
- A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada, para a
- realização das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas, quando ela se esvai no
- luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então,
- finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que ela já passou (4) por
- nós sem que tivéssemos percebido. O fato é o seguinte: não recebemos uma vida
- breve, mas a fazemos, nem somos dela carentes, mas esbanjadores. Tal como
- abundantes e régios recursos, quando caem nas mãos de um mau senhor,
- dissipam-se num momento, enquanto que, por pequenos que sejam, se são confiados
- a um bom guarda, crescem pelo uso, assim também nossa vida se estende por muito
- tempo, para aquele que sabe dela bem dispor.
-
- [...]
-
- Por que nos queixamos da Natureza? Ela mostrou-se benevolente: a vida, se
- souberes utilizá-la, é longa. Mas uma avareza insaciável apossa-se de, um de
- outro, uma laboriosa dedicação a atividades inúteis, um embriaga-se de vinho,
- outro entorpece-se na inatividade; a este, uma ambição sempre dependente das
- opiniões alheias o esgota, um incontido desejo de comerciar leva aquele a
- percorrer todas as terras e todos os mares, na esperança de lucro; a paixão
- pelos assuntos militares atormenta alguns, sempre preocupados com perigos
- alheios ou inquietos com seus próprios; há os que, por uma servidão voluntária,
- se desgastam numa ingrata solicitude a seus superiores; (2) a busca da beleza
- de um outro ou o cuidado com sua própria ocupa a muitos; a maioria, que não
- persegue nenhum objetivo fixo, é atirada a novos desígnios por uma vaga e
- inconstante leviandade, desgostando-se com isso; alguns não definiram para onde
- dirigir sua vida, e o destino surpreende-os esgotados e bocejantes, de tal
- forma que não duvido ser verdadeiro o que disse, à maneira de oráculo, o maior
- dos poetas: “Pequena é a parte da vida que (3) vivemos.” Pois todo o restante
- não é vida, mas tempo.
-
- [...]
-
- Finalmente, todos concordam que um homem ocupado não pode fazer nada bem: não
- pode se dedicar à eloqüência, nem aos estudos liberais, uma vez que seu
- espírito, ocupado em coisas diversas, não se aprofunda em nada, mas, pelo
- contrário, tudo rejeita, pensando que tudo lhe é imposto. Nada é menos próprio
- do homem ocupado do que viver, pois não há outra coisa que seja mais difícil de
- aprender. Professores das outras artes, há vários e por toda parte, dentre
- algumas dessas, vemos crianças terem atingido tanta maestria, que chegam até a
- ensiná-las. Deve-se aprender a viver por toda a vida, e, por mais que tu talvez
- te espantes, a vida (4) toda é um aprender a morrer. Muitos dos maiores homens,
- tendo afastado todos os obstáculos e renunciado às riquezas, a seus negócios e
- aos prazeres, empregaram até o último de seus dias para aprender a viver,
- contudo muitos deles deixaram a vida tendo confessado ainda não sabê-lo – e
- muito menos ainda (5) o sabem os que mencionei acima.
-
- [...]
-
- Cada um faz precipitar sua vida e (9) padece da ânsia do futuro e de tédio
- do presente.
-
- [...]
-
- Portanto não há por que pensar que alguém tenha vivido muito, por causa de suas
- rugas ou cabelos brancos: ele não viveu por muito tempo, simplesmente foi por
- muito tempo. Pensarias ter navegado muito, aquele que, tendo se afastado do
- porto, foi apanhado por violenta tempestade, errou para cá e para lá e ficou a
- dar voltas, conforme a mudança dos ventos e o capricho dos furacões, sem
- contudo sair do lugar? Ele não navegou muito, mas foi muito acossado.
-
- [...]
-
- Os homens recebem pensões e aluguéis com muito prazer e concentram neles suas
- preocupações, esforços e cuidados, mas ninguém dá valor ao tempo; usa-se dele a
- rédeas soltas, como se nada custasse. Porém, quando doentes, se estão próximos
- do perigo de morte, prostram-se aos joelhos dos médicos; ou, se temem a pena
- capital, estão prontos a gastar todos os seus bens para viver.
- Tamanha é a discórdia de seus (3) sentimentos! Se fosse possível apresentar a
- cada um a conta dos anos futuros, da mesma forma que podemos fazer com os
- passados, como tremeriam aqueles que vissem restar-lhes poucos anos e como os
- poupariam! Pois, se é fácil administrar o que, embora curto, é certo, deve-se
- conservar com muito cuidado o que não se pode saber (4) quando há de acabar.
- Contudo não há por que pensar que eles ignoram que coisa preciosa é o tempo:
- costumam dizer aos que amam muitíssimo que estão dispostos a lhes dar parte de
- seus dias. E realmente dão, sem se aperceberem disto, mas dão de forma a
- subtraírem vários anos a si, sem aumentar os daqueles. Mas ignoram o fato mesmo
- de estarem perdendo seus anos, por isso lhes é tolerável a perda de um bem que
- não é (5) notado. Ninguém devolverá teus anos, ninguém te fará voltar a ti
- mesmo. Uma vez principiada, a vida segue seu curso e não reverterá nem o
- interromperá, não se elevará, não te avisará de sua velocidade. Transcorrerá
- silenciosamente, não se prolongará por ordem de um rei, nem pelo apoio do povo.
- Correrá tal como foi impulsionada no primeiro dia, nunca desviará seu curso,
- nem o retardará. Que sucederá? Tu estás ocupado, e a vida se apressa; por sua
- vez virá a morte, à qual deverás te entregar, queiras ou não.
-
- 9 – 1: Pode haver algo mais estúpido que o modo de ver de alguns – falo
- daqueles que deixam de lado a prudência. Ocupam-se para poder viver melhor:
- armazenam a vida, gastando-a! Fazem seus planos a longo prazo; no entanto
- protelar é do maior prejuízo para a vida: arrebata-nos cada dia que se oferece
- a nós, rouba-nos o presente ao prometer o futuro. O maior impedimento para
- viver é a expectativa, a qual tende para o amanhã e faz perder o momento
- presente. Do que está nas mãos da Fortuna, dispões; o que está nas tuas,
- despedes. Para onde ficas a olhar? Para que tendes? Tudo que está por vir se
- assenta na incerteza: desde (2) já, vive!
-
- [...]
-
- O tempo presente é brevíssimo, tanto que a alguns parece não existir, pois está
- sempre em movimento; flui e precipita-se; deixa de ser antes de vir a ser; é
- tão incapaz de deter-se, quanto o mundo ou as estrelas, cujo infatigável
- movimento não lhes permite permanecer no mesmo lugar. Pertence, pois, aos
- ocupados, apenas o tempo presente, que é tão breve que não pode ser abarcado; e
- este mesmo escapa-lhes, ocupados que estão em muitas coisas.
-
- [...]
-
- Dentre todos os homens, somente são ociosos os que estão disponíveis para a
- sabedoria; eles são os únicos a viver, pois, não apenas administram bem sua
- vida, mas acrescentam-lhe toda a eternidade. Todos os anos que se passaram
- antes deles são somados aos seus.
-
- [...]
-
- Nenhum destes [filósofos] forçará tua morte, todos te ensinarão a morrer,
- nenhum dissipará teus anos, mas te oferecerá os seus. Nunca a conversação com
- eles será perigosa, fatal a amizade ou onerosa a deferência. Conseguirás deles
- tudo o que quiseres: não será deles a culpa (2) se não tiveres exaurido tudo o
- que desejas. Que felicidade, que bela velhice não aguarda o que se dispôs a ser
- seu cliente! Ele terá com quem discutir sobre as menores, bem como sobre as
- maiores, questões, a quem consultar diariamente sobre si mesmo, de quem ouvir a
- verdade sem ofensa e ser louvado sem adulação, a cuja (3) semelhança se possa
- moldar. Costumamos dizer que não está em nosso poder escolher os pais que a
- sorte nos destinou, mas que nos foram dados ao acaso; contudo é nos permitido
- ter um nascimento segundo a nossa escolha. Existem famílias dos mais nobres
- espíritos: escolhe a qual delas queres pertencer, e receberás não apenas seu
- nome, mas também seus próprios bens, que não terás de vigiar miserável e
- mesquinhamente, pois, quanto mais forem partilhados pelos homens, maiores (4)
- se tornarão. Estes te darão o acesso à eternidade, te elevarão àquelas alturas
- de onde ninguém se precipita. Esta é a única maneira de prolongara existência
- mortal e, até mais, de convertê-la em imortalidade. As dignidades, os
- monumentos, tudo o que a ambição impôs por decretos, ou construiu com o suor,
- depressa há de cair em ruínas: não há nada que a longa passagem dos anos não
- destrua ou desordene. Mas ela não pode tocar nos conhecimentos que a sabedoria
- consagrou, nenhuma idade os destruirá ou diminuirá, a seguinte e as sucessivas
- sempre hão de aumentá-los ainda mais: pois a inveja tem olhos apenas para o que
- está próximo de si, e admiramos com menos malícia o que está (5) distante.
- Portanto a vida do filósofo estende-se por muito tempo, e ele não está
- confinado nos mesmos limites que os outros. É o único a não depender das leis
- do gênero humano: todos os séculos servem-no como a um deus.
-
- [...]
-
- É extremamente breve e agitada a vida dos que esquecem o passado, negligenciam
- o presente e receiam o futuro; quando chegam ao termo de suas existências, os
- pobres coitados compreendem tardiamente que (2) estiveram por longo tempo
- ocupados em nada fazer. [...]
- Não há ainda razão para se pensar que isto também seja uma prova de uma vida
- longa: – o fato de muitas vezes os dias lhes parecerem longos, ou porque se
- queixam de as horas custarem a passar até que chegue o momento do jantar; pois,
- se porventura as ocupações os abandonam, sentem-se desertados e inquietam-se
- mesmo no lazer, nem sabem como dispor dele ou matá-lo. Portanto anseiam por uma
- ocupação qualquer, e todo intervalo de tempo entre duas ocupações lhes é um
- fardo. E – por Hércules – tal é o que acontece quando se fixa a data dos
- combates de gladiadores, ou quando se aguarda o dia de um outro gênero qualquer
- de espetáculo ou divertimento: (4) desejam saltar os dias intermediários!
-
- [...]
-
- Em meio a grandes labutas, conseguem o que desejam e ansiosos conservam o que
- conseguiram; entretanto não têm consciência de que o tempo nunca mais há de
- voltar. Novas ocupações seguem-se às antigas; a esperança suscita esperança; a
- ambição, ambição.
-
- [...]
-
- Portanto, meu caro Paulino, aparta-te da multidão e, já bastante acossado pela
- duração de tua existência, não te afastes de um porto mais tranqüilo. Pensa
- quantas vagas já te acometeram, quantas tempestades, de uma parte, já
- suportaste na vida particular, quantas, de outra, suscitaste contra ti na vida
- pública. Teu valor já foi suficientemente testado, em fatigantes e atormentadas
- provas, o teu valor: tenta ver o que pode realizar no ócio. A maior parte de
- tua vida, e certamente a melhor, foi dada à República, toma (2) também para ti
- um pouco de teu tempo. Não te convoco a um retiro indolente e inativo, nem
- a afogar todo o teu vigoroso caráter no sono ou nos prazeres caros à multidão:
- isso não é estar em sossego. Encontrarás tarefas maiores que todas as que
- cumpriste devotadamente até aqui, as quais executarás no retiro e livre de (3)
- preocupações.
-
- [...]
-
- Recolhe-te a estas coisas mais tranqüilas, mais seguras, melhores! Acaso tu
- pensas serem o mesmo estas duas coisas: cuidar que o trigo seja transportado ao
- celeiro, intacto e a salvo da fraude ou negligência dos carregadores, que não
- se estrague pela fermentação, que esteja bem seco, que seu peso e medida
- confiram, e elevar-se às coisas sagradas e sublimes para conhecer qual é a
- substância de deus, seu prazer, sua condição, sua forma, que destino aguarda
- tua alma, que lugar a Natureza nos destina após nos separarmos do corpo, qual a
- razão por que ela mantém os corpos mais pesados no centro do universo, suspende
- os altos às regiões altas, eleva o fogo à mais alta, impele as estrelas às suas
- trajetórias e ainda outras coisas cheias de notáveis (2) maravilhas? Abandona o
- solo e volta-te a esses estudos! Agora, enquanto o sangue ferve, deve-se ir,
- com determinação, para o melhor.
-
- [...]
-
- Portanto, quando vires freqüentemente uma toga pretexta ou um nome célebre no
- fórum, não o invejes: essas coisas são adquiridas ao custo da vida. Para ligar
- seu nome a um único ano, consumirão todos os seus anos. A uns, a vida abandonou
- logo nas primeiras etapas, antes que tivessem atingido as alturas ambicionadas;
- a outros, após terem galgado o cume das honras através de mil desonestidades,
- sobrevém o triste pensamento: “ter trabalhado tanto por uma inscrição num
- túmulo!”